Torcida organizada do Boca tem estreitas relações com o poder na Argentina
Poucas coisas são tão bonitas como ver o Boca Juniors entrar em campo no estádio La Bombonera. Só que a mítica chuva de papel picado e a festa que recebe a equipe xeneize esconde uma dura realidade desconhecida dos brasileiros.
Violência, extorsão, lavagem de dinheiro, associação com grupos criminosos e com políticos que ocupam o poder. Não é um roteiro de um filme de Al Pacino. Essa é história da La Doce, a barra (como chamam as torcidas organizadas na Argentina e no Uruguai) do Club Atlético Boca Juniors. O grupo de torcedores mais temido do mundo. Uma agremiação onde a violência "é herança, herança e herança".
O poder e a fama da barra do Boca é tão grande que seus bastidores renderam o livro "La Doce", do jornalista argentino Gustavo Grabia. Lançado no Brasil pela Panda Books, a obra reúne capítulos em que fica evidente a relação da torcida organizada com as maiores esferas de poder no país. Para se ter ideia, Mauro Martín, o atual líder da barra, já participou de reúniões fechadas em plena Casa Rosada —sede do governo argentino.
Como um Kraken (lendário monstro gigante que ameaçava navios na cultura nórdica) a La Doce tem muitos tentáculos e aí reside a sua força. Como a maioria das torcidas organizadas do Brasil, a do Boca recebe ingressos da direção do clube e os revende obtendo lucro. Mas a barra também tem o monopólio das vagas de estacionamento ao redor do estádio e de tudo que é comercializado de lícito e ilícito dentro da La Bombonera e também nas suas cercanias. Negócios tão lucrativos que fizeram com que os líderes da torcida criassem a Fundação Número 12 cujo único fim era lavar o dinheiro angariado.
A La Doce também tem costas quentes com a justiça. Seus líderes historicamente têm um retrospecto de impunidade graças aos seus contatos com poderosos políticos. E não respeitam ninguém. Se você acha um absurdo torcedores organizados irem cobrar o time no CT em plena luz do dia como ocorre no Brasil, saiba que com a Barra do Boca as coisas acontecem de modo bem diferente. Lá as cobranças são feitas no hotel da concentração, durante a noite e em lugares isolados como o estacionamento. Até Riquelme já foi ameaçado por La Doce.
Arquibancada é uma arena para disputa de poder
O "Principado de La Bombonera" é terreno tão complexo que arquibancada não é lugar único e exclusivo para apoiar o time. Óbvio que a torcida do Boca empurra o time como poucas no mundo, mas uma cena tem se tornado cada vez mais comum em jogos importantes na equipe.
Como no vídeo acima, Mauro Martín (o atual líder de La Doce) comanda gritos de guerra contra o outro lado capitaneado por Rafael di Zeo (antigo líder da barra) que por sua vez direciona gritos inflamados contra o rival no poder. No meio de tudo isso fica o torcedor comum do Boca. Esse é o terreno acidentado em que o Corinthians começa o sonho de vencer sua primeira Libertadores.
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